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  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Credo de Covas

As poucas pessoas presentes à sessão da Câmara em 12.12.68 se impressionaram com o discurso do então deputado Mário Covas, que agora é divulgado por Último Segundo Em 12.12.68, 141 deputados votaram a favor da licença para processar Márcio Moreira Alves, que o governo acusava de ter ofendido as Forças Armadas em discurso pronunciado três meses antes, em 2 de setembro. A maioria - 216 - votou contra a licença. Houve ainda 12 votos em branco, dando um total de 369 testemunhas de uma das mais importantes sessões da Câmara dos Deputados. Esses e uns poucos jornalistas presentes costumam citar, admirados, o discurso do hoje governador de São Paulo, Mário Covas, que na época era líder da oposição. Trata-se porém de citação imprecisa, pois ninguém decorou o pronunciamento de Covas. Só agora, com a divulgação da íntegra da sessão, feita por Último Segundo, é possível saber exatamente o que cada um falou naquele dia. Do tão comentado discurso de Covas, o trecho mais destacado é o seu Credo, a seqüência de declarações que encerram o seu pronunciamento e que reproduzimos, aqui: "Eu, Sr. Presidente, por formação e por índole, sou um homem que fundamentalmente crê. Desejo morrer réu do crime da boa fé, antes que portador do pecado da desconfiança. Creio na Justiça, cujo sentimento, na excelsa lição de Afonso Arinos, é a noção de limitação de Poder. (...) Creio no povo, anônimo e coletivo, com todos os seus contrastes, desde a febre criadora à mansidão paciente. Creio ser desse amálgama, dessa fusão de lamas e emoções, que emana não apenas do Poder, mas a própria sabedoria. E nele crendo, não posso desacreditar de seus delegados. Creio na palavra ainda quando viril ou injusta, porque acredito na força das idéias e no diálogo que é seu livre embate. Creio no regime democrático, que não se confunde com a anarquia , mas que em instante algum possa rotular ou mascarar a tirania. Creio no Parlamento, ainda que com suas demasias e fraquezas, que só desaparecerão se o sustentarmos livre, soberano e independente. Creio na liberdade, este vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança se seu criador. Creio, Sr. Presidente, e esta crença mais se consolidou pelas últimas lições que recebi, pois nunca é tarde para aprender, na honra, esse atributo indelegável, intransferível por ser propriedade divina".

Último Segundo

Carmo Chagas é jornalista, autor de "Vesgo" e em 1968 era editor-assistente de Brasil da revista "Veja"