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  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Covas, O Estóico

Foi constrangedor ver na semana passada o governador Mário Covas, ao empossar o presidente da Febem, que vai gerir uma das áreas mais delicadas e complexas da gestão do Estado, perder o rumo do discurso, tropeçar nas palavras e se perder no labirinto da semântica. Foi assustador, principalmente depois que se soube anteontem que os lapsos foram provocados pela metástase no cérebro. Um adversário insensível poderia exigir seu impedimento, como um ganancioso que deseje meter a mão na herança gorda de um parente incapaz. Mas nenhuma voz se ergueu para contestá-lo. A massa, que tantas vezes costuma comportar-se com crueldade, repetindo os polegares abaixados que decretavam a morte dos gladiadores nos circos romanos, chega a ser piegas quando encontra motivo para a piedade coletiva. De certa forma, isso se repete no caso da grave doença de que é vítima o governador paulista. Só que no caso desse aplauso comovido ao doente, que resolveu expor publicamente as deficiências orgânicas impostas pela moléstia, há também um componente de sabedoria política. A exposição por Covas de suas debilidades é, antes de tudo, se não inédita, pelo menos singular. A geração anterior à dele no comando dos destinos da República, ainda impregnada da ilusão coletiva de que o político deveria ser visto como uma espécie de super-herói com máculas, mas com direito a várias blindagens, inclusive morais, escondia suas doenças. Petrônio Portela, o mais incentivado dos políticos civis que serviram à ditadura militar para o projeto da abertura democrática sob controle do topo, praticou suicídio involuntário, ao recusar consultar um médico em pleno infarto. Tancredo Neves, escolhido para realizar o pacto da saída sem dor do regime duro, mas apodrecido, rumo à democracia, também se deixou sacrificar, permitindo que a doença avançasse para que as tropas não saíssem dos quartéis para impedir sua posse. Nesta nova democracia, inaugurada não pelo herdeiro indireto de Vargas e Juscelino, mas por seu vice, José Sarney, a imagem do político profissional sofreu uma reviravolta. Safadezas antes recônditas, expostas às escâncaras no noticiário, mudaram no Brasil, como já ocorrera no mundo, essa figura do vinho forte para a água suja, invertendo o milagre de Canaã. O gestor público deixou de ser o pastor encarregado de evitar a queda do rebanho abismo abaixo e passou a ser execrado como um canalha sem remissão, alguém incapacitado para o exercício de alguma atividade profissional privada, seja por incompetência, seja por indecência. "Todos são farinha do mesmo saco", proclama o imaginário popular, auxiliado ora pela repetição freqüente dos exemplos que comprovam a regra, ora pela esperteza dos malandros, que fazem questão de se misturar aos honestos para queimá-los. Mas essa imagem também é falsa. Ao se expor ao risco da reação emocional da população, seja pela galhofa, seja pela comiseração, com idênticos resultados desastrosos para a política e a administração, Mário Covas cumpre a tarefa didática de mostrar que o administrador democrata republicano não é o super-herói sem mácula nem o viciado sem virtudes. É apenas gente. A blindagem do pai dos pobres do passado dava às elites que tinham acesso ao poder, ou o tomavam de assalto, a vantagem de manter a patuléia a distância, entorpecida com pesadas cargas de ilusão. A calúnia segundo a qual todos os políticos são abomináveis também é conveniente para os que querem continuar chafurdando na impunidade geral reinante, mesmo após a abertura das comportas dos escândalos pela imprensa. Entre um extremo e o outro, a exposição nua e crua do ser humano submisso aos caprichos insondáveis da natureza animal e soberano senhor de seu destino tem um saudável efeito didático: ao cidadão comum, que elege seus governantes por sua decisão pessoal e intransferível, é útil saber que o eleito não passa de seu reflexo, e não um reflexo pelo avesso, como num espelho, mas, sim, direto. Os políticos são capazes de grandezas e de mesquinharias, como qualquer um de nós: estão submetidos às baixas tentações carnais, da mesma forma como têm acessos de elevações do espírito. O Covas poderoso e turrão é apenas um animal falível, cuja vida depende de um sopro - o quase nada, que é tudo. Neste instante, sua debilidade é sua grandeza, pois, ao exibi-la, desta forma quase indecente como o faz, ele não deixa de estar chamando cada cidadão à responsabilidade da qual tem sido cômodo fugir. Por que os políticos seriam super-heróis, se são eleitos por nós, que não carregamos medalhas no peito? Por que só são eles os canalhas, e nós os santos, se são feitos do mesmo estofo que nós e - pior - se somos nós que os fazemos? Só em nos fazer perceber isso, Covas, o estóico, está cumprindo um memorável papel histórico.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do `Jornal da Tarde'