x Fechar
  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Exemplo de Vida

A notícia de que o Governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), fora internado em esquema fora das previsões da equipe médica que o assiste ao longo da enfermidade apenas surpreendeu aqueles que se conformam com os boletins oficiais. Embora a história recente do país ofereça exemplos de que essa política nem sempre é confiável - e o caso de Tancredo Neves é o mais ilustrativo do ponto a que podem chegar estratégias desse tipo -, ainda existem pessoas que preferem dar crédito aos tediosos boletins, que em algumas palavras tentam tranquilizar a platéia. Faz parte da cultura brasileira cercar o doente de cautelas e esperanças nem sempre correspondentes à verdade dos diagnósticos. Essa condescendência se verifica em todas as escalas das relações humanas, até mesmo no ambiente familiar. Poupar o enfermo de ser informado dos riscos que corre em razão de determinada moléstia é semelhante a uma espécie de perdão tácito concedido de hábito aos que assam por transes de difícil superação. Um faz de conta que satisfaz a todos, a partir do próprio enfermo, com raras e cada vez mais frequentes exceções. O governador dos paulistas, determinado e insistente por injunções do próprio temperamento, vem dando, ao longo do tempo em que enfrenta sucessivas recidivas de uma doença ainda sem grandes possibilidades de cura total, demonstrações incomuns de fortaleza interior, de capacidade de superação dos problemas pessoais em nome da governabilidade de São Paulo. Resta saber se é assim mesmo. Todos os que o cercam, de familiares a médicos, passando pela mídia, encenam o jogo de que está tudo bem, como é praxe entre nós. Teimoso, e, nesse caso, com alguma ponta de autoafirmação, o governador insiste em participar de solenidades em locais distantes de sua residência, que exigem locomoção conturbada em razão de suas atuais restrições físicas, como se necessário fosse provar alguma coisa a alguém. Nada mais falso do que, por exemplo, ir às compras, quando se sabe que até mesmo as lojas de sua predileção têm por hábito levar os novos lançamentos para que sejam escolhidos em seu gabinete ou em casa. Semelhantes fatos, que dia a dia colaboram para desmontar o castelo de cartas habilmente armado ao seu redor, interessariam apenas aos mais chegados à pessoa que passa por essa provação. Ocorre que os episódios se dão em relação ao governador de São Paulo, o mais importante Estado da federação, e de suas decisões dependem negócios, empregos, verbas oficiais e inúmeras outras situações. É esse o outro lado importante da questão, que vem sendo omitido até mesmo por jornalistas mujas fontes de informação são lidas como de primeira linha. Enquanto essa estratégia ainda consegue manter o grosso da opinião pública fora do debate sobre a eventual sucessão de Mário Covas, já o mesmo não ocorre entre responsáveis pela atividade produtiva, novos prefeitos e todas aquelas parcelas de cidadãos que geram e administram a riqueza paulista. Uma grande interrogação paira acima de todas as cabeças, até porque o vice-governador tem temperamento retraído e idéias e pensamentos ainda pouco testados. Afinal, diante da história de vida do governador, tanto como homem quanto político e democrata, fica realmente difícil de entender o que se passa, acima e atrás da doença que infesta seu organismo. Até porque seu currículo não autoriza que se credite semelhante desgaste físico a qualquer tipo de reconhecimento público ou coisa semelhante e muito menos que ele ou seu grupo estejam investindo em novas empreitadas. O que realmente fica, afinal, é o espírito de luta contra a adversidade e que, acima das próprias divergências políticas, essa garra sirva de exemplo, como, aliás, tem servido a própria vida do governador Mário Covas.

Diário do Grande ABC