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  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Covas é um gigante

Mário Covas é um gigante. A forma corajosa como demonstra a disposição em enfrentar a sua grave doença é comovente. É claro que é uma luta em muitos momentos inglória. É claro que é triste assistir aos momentos em que tomba. Mas deveríamos aplaudir a forma como, em seguida, ele ergue a cabeça , em vez de considerar tudo isso um espetáculo constrangedor. Há um erro em comparar a disposição de Covas de viver a sua vida até o último momento - Deus queira que esse último momento ainda esteja longe - com os episódios vividos por Petrônio Portela e Tancredo Neves. Os dois políticos surpreenderam e chocaram o país porque escondiam que estavam doentes. Quando descobrimos o que acontecia, os dois já estavam condenados. Nesses casos, de fato, médicos foram coniventes com os caprichos e vaidades desses políticos, escondendo da população a gravidade e a extensão das suas doenças. Não é o que acontece agora com Mário Covas. Desde o início, a sua doença é pública. Acompanhou-se toda a evolução do seu mal. Todos sofremos e torcemos pelo seu restabelecimento como se fosse um parente próximo. Da mesma forma, seu tratamento é público. O que parece pedir Mário Covas? Apenas o direito de não ser sepultado antes mesmo de morrer. Por que negar-lhe esse direito? Será verdade que Covas não tem mais condições de trabalhar? Concretamente, que prejuízo ao Estado de São Paulo a sua atitude está causando? Ele sofre com essa insistência? Provavelmente, sofre. Sofreria menos caso encerrasse em um quarto de hospital? O que, na verdade, parece estar havendo no caso dos que não suportam acompanhar a sua agonia é o velho preconceito contra as pessoas doentes. Queremos ver os corpos saudáveis. Malhados e bronzeados. A cultura da boa forma é execrável. Ela não suporta nem os velhos. Nem os gordos. Não suporta nem os feios. Imagine o que ela faz com os que têm doenças graves. Escondam o velho doente. Retirem-no das vistas dos corpos malhados da geração academia. Não permitam ao homem viver a sua vida em paz enquanto puder. Coloquem nele um pijama. Encerrem-no em um quarto. Que fique lá. Caso se recupere, voltará á nossa convivência com a tez corada dos homens saudáveis, como se recomenda. Em caso contrário, que nos poupe de sofrer junto com ele. A cultura da boa forma é que é a grave doença dos nossos tempos. Doença psicológica. Que impinge à sociedade corpo e saúde que não existem de fato. Torna a todos nós uns neuróticos, em busca eterna de algo que não conseguiremos. Enriquecendo esteticistas, endocrinologistas e cirurgiões plásticos. Entupindo nossos corpos de silicone. Respeitemos quem quer apenas viver a sua vida enquanto vida existir. Respeitemos o louco que acha que pode contra a "indesejada das gentes", como chamava Manoel Bandeira. Lembremos apenas que forte não é exatamente sinônimo de musculoso.