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  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Limites da Vontade

Mário Covas não bebe. Nada, nem um chopinho. Deixou de fumar depois da implantação de pontes de safena no coração, há anos. Não lê romances, mas devora relatórios e tabelas de estatísticas. Nunca colecionou nada, nem caixas de fósforos. Seu interesse por música, popular ou erudita, é vago. Casou-se com Lila, que tinha 14 anos quando a conheceu. Namoraram oito anos, noivaram quatro. Mário pouco vai ao cinema. Não gosta de vida social e só comparece a festas por obrigação política ou administrativa. Tem um fechado grupo de amigos que o acompanhou a vida inteira, muitos deles contemporâneos do tempo de estudante na Politécnica, quase todos de Santos, gente que entra e sai do governo segundo os chamados que recebem para assessorá-lo. Um deles é jornalista: Osvaldo Martins, atual secretário de Comunicação Social, que com ele abriu um escritório de importação e exportação logo após a cassação de seu mandato, em 1969. Como diz o Osvaldinho. - A Lei de Murphy é implacável. O que tem tudo para dar errado, como um negócio de comércio internacional de um engenheiro e de um jornalista que não entendiam nada do assunto, dá errado mesmo. Foi o que aconteceu com a nossa empresa. À noite, Mário fica com o controle remoto da TV na mão, passando de um para outro canal, sem dar tempo para que a atenção se fixe, a não ser nos programas esportivos. Segue todos, até mesmo os de hóquei no gelo. Sabe as regras de qualquer esporte, à exceção de baseball e cricket. Este, aliás, é um jogo tão volúvel que nem os ingleses estão seguros quanto às suas regras. Paixão, além das esportivas, Mário só tem o trabalho de governador de São Paulo. Segue, minuciosamente, os programas de cada secretaria e cobra dos secretários as providências combinadas. Procurou, na montagem de seu grupo de auxiliares, escolher o que de melhor a política e as universidades de São Paulo poderiam oferecer. Um secretariado com nível de ministério, afirma Walter Barelli, por exemplo, era o principal economista do Dieese e militante do PT, antes de ser ministro do Trabalho de Itamar Franco e secretário de Emprego de Covas. José Aníbal, secretário da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento, era líder da bancada federal do PSDB na Câmara. André Franco Montoro Filho, secretário do Planejamento, fora presidente do BNDES e era o presidente da Fipe, a fundação da USP que mede a inflação em São Paulo. Antonio Angarita, secretário de Governo, professor da USP, foi o coordenador do programa apresentado aos eleitores na busca do segundo mandato e é um parceiro antigo, dos tempos do governo Montoro, assim como o médico José Guedes, secretário de Saúde. É a paixão pelo trabalho e o orgulho que sente pelos resultados obtidos que explicam a tenacidade de Mário Covas na épica luta que trava contra a morte, cara a cara, diante do país inteiro. Diz ele: _ O povo sempre me tratou bem. Agora, com a doença, trata melhor ainda. Encontrar-me com o povo é o melhor remédio que posso desejar. Isso é que os médicos não entendem. Quinta-feira, depois de levar um tombo no quarto quando tentou levantar-se sozinho para ir ao banheiro, David Uip, seu médico particular, fez uma intervenção de autoridade. Levou-o para o Incor, onde começou um trabalho experimental contra as células cancerosas que surgiram no seu líquido medular, e cancelou sua ida a Itapecerica da Serra, onde entregaria 84 casas populares recém-construídas. A decisão impediu que Covas fizesse o que mais gosta: sortear casas para a população pobre. Há alguns meses acompanhei-o numa excursão dessas. Os candidatos inscritos no programa se reúnem num ginásio ou num campo de futebol. Seus números são colocados em bolas de arame, semelhantes as dos sorteios da Caixa Econômica, segundo a renda de cada família. Até um salário-mínimo numa bola, até três noutra, até cinco numa terceira. As bolas mais cheias são as de até três mínimos. Uma criança é chamada para sortear os números. A alegria dos sorteados é intensa e os que não foram bafejados pela sorte os aplaudem. É generosidade do povo, sem invejas. As escrituras são passadas em nome das mulheres. Covas explica: _ Homem é um bicho muito safado. Se não garantimos a casa para mulheres e filhos, arrumam outra mulher depressa e deixam a família sem teto. O projeto de Mário Covas é morrer em público, ao fim de uma luta medieval contra a morte. Dedicou a vida a trabalhar pelo povo que por duas vezes lhe confiou o destino do maior estado da federação. Quer cumprir o mandato recebido até o fim, na frente de todos, diante dos holofotes da TV e dos flashes dos fotógrafos. E quer que sua obra seja mais conhecida e apreciada. Para isso me chamou. Cumpro o seu desejo com a tristeza de ver que no embate entre a força de vontade e as forças físicas, a vontade tem os limites que as forças físicas estabelecem. Esse limite começa a ser ultrapassado.

Jornal O Globo