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  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Covas e A Luta Democrática

Mário Covas ocupa um lugar irremovível na história da luta democrática que se opôs ao regime militar instalado no Brasil em 1964. Enfrentou com destemor a adoção do Ato Institucional nº 5 (AI-5) que aprofundou o caráter autoritário do regime, repudiou a cassação do deputado Márcio Moreira Alves e prestou seu apoio e solidariedade às manifestações estudantis de 1968. No processo de redemocratização do País foi um dos principais artífices da anistia, do retorno às liberdades democráticas, do restabelecimento da liberdade sindical, da convocação da Assembléia Nacional Constituinte e da campanha das diretas. Um dos momentos mais significativos da história política de Covas, sem dúvida, foi sua atuação na Assembléia Nacional Constituinte. Líder do PMDB naquele momento, foi líder também do chamado bloco progressista formado por uma aliança de centro-esquerda com a esquerda. Em grande medida, não só os avanços democráticos mas também os avanços sociais contidos na Constituição de 1988, se devem à ação dessa aliança progressista liderada por Covas. Foi justamente em reação às teses democráticas e sociais assumidas por este bloco que se formou o famoso Centrão, grupo parlamentar que aglutinava os segmentos conservadores da Constituinte. Covas teve ainda uma atuação destacada nas duas principais CPIs da história recente do Brasil: a CPI do impeachment de Collor e a CPI dos Anões do Orçamento. Estas CPIs também se inscrevem no contexto da democratização do País. O que estava em jogo ali não era simplesmente a investigação e a punição de alguém. As CPIs buscaram estabelecer uma divisa entre um Brasil patrimonialista, apropriado por políticos corruptos e por setores privados e um Brasil público, republicano, democrático, a serviço da cidadania. Conferir um caráter público e transparente ao Estado foi uma preocupação permanente na vida política de Covas. Já no comando do Governo do Estado de São Paulo, Covas não se esqueceu daqueles dias mais duros de enfrentamento do autoritarismo. Entre outros exemplos deste não esquecimento pode-se citar a sua preocupação em viabilizar uma lei de indenização aos presos políticos que foram torturados no Estado e a reabertura dos exames das ossadas encontradas nas valas clandestinas do Cemitério de Perus para identificar restos de possíveis presos políticos. Nós, do PT, tivemos relações de aliados e adversários políticos de Covas em diferentes momentos. Mas seja na aliança ou seja na oposição, aprendemos a cultivar enorme respeito pela sua figura política e pela sua pessoa. Neste momento em que, na política brasileira, se luta para elevar os padrões morais do homem público, Covas é um paradigma de responsabilidade, compromisso e honestidade. Com sua teimosia e simplicidade, despiu-se da vaidade tão comum aos políticos quanto prejudicial ao interesse coletivo. Ao sair da vida para entrar na história do Brasil, Covas ocupa um lugar destacado numa galeria constituída por uns poucos ilustres políticos. Estará na companhia de Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e Franco Montoro. Covas talvez seja o último representante dessa estirpe de políticos que fazia política com paixão, responsabilidade e senso de medida. Provavelmente inimitáveis nos seus estilos e nas suas singularidades, estes políticos, no entanto, têm muito a ensinar às novas gerações. Uma das lições que eu aprendi dos seus exemplos é a de que a política só tem sentido se for feita sob a orientação de valores. E o valor que mas me impressionou e que mais identifiquei em Covas é o da promoção da dignidade humana.