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  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

O Caráter da Elevação

A virtude da prosperidade é a temperança e a virtude da adversidade, ensina Francis Bacon, é a fortaleza, a mais heróica das virtudes. O livro da História registra que a grandeza dos Estados foi, freqüentemente, escrita com a tinta da fortaleza, que é filha da coragem, essa virtude comum aos heróis e aos grandes homens. Os generais de Alexandre, apavorados diante do oceano de soldados que era o exército dos persas, rogaram-lhe que atacasse de noite, ao que ele, altruísta e generoso, respondeu: "Não devemos roubar a vitória." Homem corajoso, derrotou o inimigo com altivez. A coragem, porém, tem sido uma qualidade cada vez mais escassa, corroída que é pelas vicissitudes desta era argentário-utilitarista. Suplanta-a a frouxidão dos que preferem a comodidade do bolso farto à intransigência de um caráter retilíneo. Homens corajosos, singulares, cedem lugar a perfis tíbios, plurais. Na política, então, a coragem da coerência abre espaço para um recorrente conceito, que tem sido relacionado à idéia de desempenho e eficácia: a flexibilidade, capacidade invocada por políticos para justificar suas mudanças, as barganhas, o discurso furta-cor, a prática do toma-lá-dá-cá. Por isso, quando, num cenário povoado por dândis, fariseus, hipócritas, covardes e oportunistas, aparece um homem corajoso, multidões acorrem para prestar-lhe reverência. Trata-se de um preito à personalidade corajosa, aquela que, no reconhecimento de Aristóteles, age pela beleza do gesto, impelida pelo sentimento de honra, inspirada pelo culto ao dever. A coragem, para elas, será sempre entendida como o triunfo sobre o medo e a covardia. Um homem de coragem? Mário Covas. Não são poucos os que discordam de seu governo, da forma como tem enfrentado os problemas do Estado, entre estes a questão da violência. O governador, até hoje, tem sobre as costas a ebulição da Febem e pesadas críticas sobre o comportamento de um ou outro colaborador. Há quem questione sua maneira de se relacionar com a sociedade, de enfrentar grupos enfurecidos. Muitos podem até não gostar de sua voz de barítono, detestar sua irremovível ranzinzice, atribuída às origens espanholas, ou discriminá-lo pelo fato de ser um fanático torcedor do Santos. Mas ninguém pode negar sua coragem. Que não é apenas a fortaleza de enfrentar com galhardia o que chama de "coisa", mas a determinação de dizer o que pensa, de não querer colocar a sujeira por baixo do tapete, de enfrentar os adversários olho no olho, de ser direto e singular no meio de correligionários contrariados com o axioma de que a reta é a menor distância entre dois pontos. Os tucanos, regra geral, são sinuosos como seus bicos. Tinham dúvidas quanto à a campanha eleitoral em São Paulo. Mesmo sabendo que seu apoio a Marta Suplicy significou colocar fermento no bolo do adversário (a conferir o pleito de 2002), Covas não hesitou, por considerar o malufismo um mal devastador a ser extirpado. Seu gesto e seu voto, mais simbólicos que um efetivo engajamento na campanha, sinalizou a trilha ética que se descortina ao novo ciclo político. Uma lição que poderá calar fundo no PT, conhecido por cultivar o princípio do "primeiro, eu; segundo, eu; terceiro, eu". A prefeita eleita só tem mesmo que agradecer ao governador e a outros políticos que se engajaram em sua bandeira moralizadora. Que não arquive os apoios no ouvido do esquecimento. Mário Covas é a maior referência tucana e uma das poucas exceções na esburacada moldura política do País. Banha-se de identidade histórica. É forte hoje como o foi no passado. O tempo parece não ter apagado as marcas de um caminho trilhado com muita garra. A imagem do líder do MDB autêntico, pleno de bravura, bom tribuno, discursando no Parlamento, antes de ser cassado, defendendo posições progressistas e patrocinando as causas de correligionários, flagrada, há cerca de 30 anos, na tela de um aparelho de TV, na pequena praça de Luís Gomes, no centro do Polígono das Secas, extremo oeste do Rio Grande do Norte, está viva. O carimbo amarelo do tempo não desfigurou o perfil sobranceiro. Ao longo da caminhada, multiplicou a vitalidade, porque soube costurar sua história com o fio da coragem, esse atributo evocado por Epicuro como a luta do homem para durar e agüentar, viver e morrer, suportar, combater, resistir e perseverar. Spinoza chama de firmeza da alma "o esforço da pessoa para conservar seu ser sob o exclusivo ditame da razão". E razão é o que não tem faltado ao engenheiro que governa São Paulo para se retemperar toda vez que a inclemência bate em seu corpo. Toda coragem é feita de vontade, de decisão, e Mário Covas, leão ferido, mas não abatido, luta para potencializar a razão, com a qual espera enfrentar os próximos passos na administração, na política e na cama do hospital. Expor abertamente a doença, sem tergiversar, é prova de lucidez. Como lembra Comte-Sponville, trata-se de exercer a coragem do verdadeiro, a ousadia de ser autêntico num mundo cheio de fantoches. Mais uma pequena lição de humanidade a certos políticos que, levados pelo vendaval das ambições, procuram colocar tapumes sobre suas verdades. Não há tibieza em Mário Covas, nem mesmo vontade de parar o tempo para recomeçar. Parece uma pessoa conformada e afinada à sua missão. Nele se juntam o aspecto particular e o fenômeno mais amplo, a pessoa explicando o governo e o governo implicando a pessoa. Dele se pode dizer: o estilo é a estética da ação. Até numa cama de hospital, respira política. As almas viris, sabe-se, podem vergar um momento, mas não quebram. Para elas, a coragem não é a ausência do medo, mas a capacidade de superá-lo por meio de uma vontade extraordinária. O turrão Mário Covas, com toda a polêmica que gera, é um ícone nacional que simboliza o caráter da elevação.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor-titular da USP e consultor político E-mail: gautorq@dialdata.com.br