x Fechar
  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

O Legado de Mario Covas

Editorial - Correio Brasiliense

O exemplo que o governador Mário Covas deixa não pode ser enterrado com ele. Covas foi um político singular por diversas razões. Em primeiro lugar, tinha visão de Estado, essa qualidade difícil de definir que separa os homens públicos realmente indispensáveis daqueles tacanhos e egoístas. Graças a isso, sabia pôr o interesse público à frente das conveniências pessoais e partidárias. Era capaz de abdicar de crenças e posições longamente acalentadas, se a realidade e o interesse coletivo assim o exigissem. Sua morte nos obriga a olhar em torno e reconhecer a falta que ele fará. No momento político que o país atravessa, é mais fácil colher exemplos do comportamento oposto: mesquinhos interesses pessoais e partidários ganham precedência sobre o bem público; vencer a próxima eleição é mais importante do que trabalhar com seriedade para resolver os enormes problemas do país. Mas que não se confunda realismo com contorcionismo. Sim, Covas era capaz de mudar, apesar de ser um homem reconhecidamente teimoso. Mas nem por isso deixou de ser fiel às suas idéias ou de ter a coragem necessária para defendê-las. Sobressaiu-se num quadro em que são comuns a ambigüidade doutrinária, a falta de compromisso com o eleitor e o exercício da política entendido como simples rota de acesso ao poder e às vantagens que o poder traz. Basta ver os malabarismos a que se submetem políticos e partidos em geral para permanecer sempre nas boas graças do governo, qualquer que seja o governo. Covas pautou sua vida pública pela preocupação com a transparência e a honestidade. O fogo cruzado de denúncias que hoje assistimos com enfado e asco não ajuda a ninguém e não homenageia a memória do político que ontem morreu. São exclamações vazias, porque órfãs das necessárias provas. E, quando provadas, não costumam produzir conseqüências. Há, na realidade, um simples construir de frases que ameaçam desestabilizar o país e desmontar sua credibilidade interna e externa. Elas em nada contribuem para o esforço de construção de uma sociedade mais justa e de uma democracia mais verdadeira. O exemplo de serenidade e objetividade de Covas não prospera, infelizmente, ao longo da Esplanada dos Ministérios. É lamentável ali o espetáculo de som e luz ao contrário. Que de fato esparge escuridão, acaba com a transparência e confunde os cidadãos. Covas também soube equilibrar as diferentes posturas exigidas de um homem público ao longo de sua carreira. Parlamentar de oposição, era orador feroz e crítico temido. Na prefeitura e no governo estadual, foi administrador austero. Distinguiu a retórica da ação governamental, o palanque do gabinete executivo. Não é o que se vê hoje na vida brasileira. Uma vez catapultados a cargos de maior relevo, antigos colegas de Covas no parlamento continuam a agir como se suas responsabilidades não tivessem mudado. Como se não fosse deles, agora, a tarefa de resolver problemas que denunciavam antes. Covas andou no limite em sua trajetória política, mas soube perceber o momento de parar, refletir e observar. Jamais ultrapassou as fronteiras da decência. E é também por isso que seu legado não pode, não deve ser enterrado junto com ele. Deve conservar-se entre nós como algo exemplar, incômodo e necessário.