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  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
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  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Os Grandes Méritos do Administrador Covas

Editorial - Jornal Valor

O velório do governador de São Paulo Mário Covas, foi, como é normal em ocasiões desse tipo, cenário de uma avalanche de elogios à personalidade pública morta. Suas virtudes morais, políticas e humanas foram ressaltadas por aliados e adversários; milhares de cidadãos comuns lhe renderam homenagens emocionadas.

Mas se há um aspecto da vida pública de Covas que o distinguiu particularmente dos seus colegas e que merece destaque foi sua atuação como administrador do Estado. Apesar de seu currículo coerente de congressista ligado aos setores mais à esquerda no espectro ideológico, estatista quase, o prefeito e governador Mário Covas foi um gestor firme, que se empenhou com vigor na recuperação das finanças públicas. Por mais que pusessem em risco sua popularidade, ele nunca deixou de tomar medidas duras para "colocar a casa em ordem", como costumava dizer.

Em apenas seis anos, alguns dos quais em clima de crescimento contido da economia nacional, Covas conseguiu transformar um déficit que representava 21,7% do Orçamento paulista num superávit primário de R$ 1,5 bilhão e deixa ao seu sucessor para 2001 a previsão de superávit de R$ 3 bilhões.

Por meio de renegociação de dívidas (na qual empenhou seu imenso capital político), um intenso programa de privatizações, a extinção de órgãos estatais supérfluos ou ineficientes, demissões de funcionários que não trabalhavam ou se sobrepunham e a obediência estrita à filosofia de só gastar o que arrecadasse, Covas recuperou os escombros de oito anos de destempero e inconseqüência na administração do governo de São Paulo.

Foi necessária incomum vontade política para seguir esse roteiro e contrariar as expectativas de correligionários que o ajudaram a se eleger e esperavam ver seus anseios atendidos. Em muitos momentos, essa insatisfação se expressou em hostilidade aberta, à qual o governador com freqüência respondeu com coragem até física que o caracterizava. A reeleição (a que ele também se opunha por princípio, mas que acabou aceitando como missão política) quase lhe escapou devido a esse senso de responsabilidade fiscal que se transformara em quase obsessão para ele.

Covas não pôde colher os resultados do trabalho impopular que realizou. Este ano, com orçamento de R$ 43 bilhões e investimentos correspondentes a 5% desse total, quem governa é seu vice, Geraldo Alckmin, que, felizmente, dá indicações de ser um seguidor da política de austeridade praticada por Mário Covas. os investimentos previstos para este ano, que certamente vão render enormes dividendos políticos a Alckmin, são 230% superiores aos realizados em 1997, 130% maiores que os de 1999.

Além de "colocar a casa em ordem", Cova ainda foi pioneiro na exposição antecipada da programação financeira para o exercício fiscal, com garantia de cumprimento de cronograma de obras e programas sociais em andamento. Com isso, assegurou o controle pelo público das contas estaduais.

Essa transferência foi outra característica marcante do administrador Mário Covas. O contribuinte, que é o "acionista" do Estado, tem todo o direito de saber o que está sendo feito e o que se planeja fazer com o seu dinheiro; o governador, que é o "executivo", tem o dever de expor com clareza e sem subterfúgios os seus planos e ações.

Essa mesma transparência elogiável marcou a relação entre o governador e seus eleitores durante os últimos meses de vida. Covas, ao contrário da maioria de seus colegas políticos, nunca escondeu do público as enfermidades que o acometiam. Sua luta contra a doença e a morte foi acompanhada às claras por todos que o haviam tornado governador.

Ele enfrentou os problemas médicos com a mesma coragem e limpidez com que vencera os financeiros. Se não chegou a usufruir dos frutos políticos semeados por sua rigidez fiscal, ao menos Covas terminou a vida com a popularidade reconquistada. Mesmo os paulistas que se haviam frustrado com seus anos iniciais de governo, reconhecem seus méritos como homem e administrador.