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  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Que o seu exemplo prospere

O Brasil tem políticos honestos, que não desviam dinheiro público em benefício próprio, de suas famílias ou dos apaniguados. Tem também políticos coerentes, que acreditam que os seus atos devem corresponder aos seus discursos, apesar do preço às vezes elevado a pagar por essa coerência. O Brasil tem ainda políticos sinceros, propensos por temperamento e formação a dizer o que pensam e avessos à prática seguida pela quase totalidade dos colegas de ofício, de usar as palavras para esconder os pensamentos. Se, isoladamente, essas características já são pouco usuais - para dizer o menos - no universo da política nacional, muitíssimo mais raro é encontrá-las reunidas numa mesma figura pública. Mário Covas era um desses casos raros - e essa incomum conjugação de honestidade, coerência e franqueza decerto foi o traço singular de sua trajetória, a marca indelével do político e administrador que o País acaba de perder. Em recente artigo no Estado, o escritor cubano Carlos Alberto Montaner, a propósito da má conduta do então presidente americano Bill Clinton no ocaso de seu mandato, comentou que os governantes que passam à História nem sempre foram pessoas excepcionais nem necessariamente detentoras de uma bagagem intelectual excepcional. Tinham, em comum, porém, "uma visão moral e um compromisso pessoal autêntico com a missão empreendida". A observação aplica-se como uma luva ao caso do ex-governador de São Paulo. Pois essa visão e a consciência do imperativo de tal compromisso - e não eventuais predicados de estadista - foram os alicerces sobre os quais Mário Covas construiu a sua biografia. Foram também temperados pela coragem e o desassombro, os fundamentos de seu peculiar perfil entre os protagonistas de maior expressão da política brasileira contemporânea. Durante bom número de anos, este jornal divergiu das posições ideológicas de Covas, marcadas então por um forte vezo estatizante, e criticou com veemência o seu equivocado esforço, como senador da República - ao lado do correligionário e parceiro de idéias Fernando Henrique Cardoso -, para que a Constituição de 1988 viesse, afinal, a ser esse estorvo ao País que aí está. Em momento algum, porém, deixamos de admirar a sua absoluta autenticidade e a franqueza às vezes chocante com que costumava defender os seus pontos de vista. De todo modo, a conhecida teimosia de Covas não lhe toldou a lucidez, nem lhe turvou o senso de realidade. Posto diante de uma situação concreta - na condição de herdeiro da massa falida a que o quercismo havia reduzido a administração pública paulista -, o Covas governador não hesitou em contrariar o Covas parlamentar de outros tempos, desencadeando um amplo e bem-sucedido processo de privatização dos setores elétrico e rodoviário estadual, além de demitir funcionários e extinguir cargos na casa das dezenas de milhares. Essa metamorfose, ao lado da implantação, sem vacilações, de uma política de austeridade como possivelmente nunca antes se viu não apenas em São Paulo, mas em todo o Brasil, foi o que garantiu o saneamento financeiro do Estado e a formidável recuperação de sua capacidade de investimento - para não falar no restabelecimento da ética na máquina de governo. Não menos admirável do que a honestidade e a coerência com que o governador convertia em atos as suas novas convicções, sem receio de contrariar interesses enquistados no aparelho administrativo, foi a franqueza até rude, como de seu feitio, com1 que justificava essa sua política de escasso apelo ou compreensão popular. Diante da dificuldade do grande público em se dar conta da revolução invisível em curso no Palácio dos Bandeirantes, Covas por pouco não foi reeleito. Mesmo porque, apesar da genuína satisfação pessoal que experimentava no contato com o povo, ele não se distinguia pelo brilho da retórica - o que não é demérito neste país onde, também no perene carnaval da política, o que mais brilha é apenas a lantejoula que, em geral, mal cobre a nudez moral -, mas pela substância de seu discurso sempre coerente com sua atuação. Seu proselitismo era exercido com atos, mais do que com palavras. Esse padrão foi seguido à risca ao longo de sua enfermidade, até o último momento de lucidez. Hoje, com o reconhecimento público tanto de sua postura moral quanto de sua competência administrativa, ele seria o candidato natural das forças situacionistas à sucessão do presidente Fernando Henrique, com enormes possibilidades de vitória - se o destino não tivesse decidido o contrário. Que o seu exemplo prospere!