x Fechar
  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

O Timoneiro de uma Geração

Reconhecido pelo mundo político como um administrador muito eficaz, principalmente por sua gestão de seis anos à frente do Estado de São Paulo, onde atingiu o equilíbrio fiscal em menos de dois anos -sem aumentar a receita-, Mário Covas poderia, só com isso, deixar um legado para o Brasil. O caderno "Síntese das Principais Ações", compilado por Lúcia Dal Medico, conta uma história concreta e exemplar de uma administração densa e consistente em obras e serviços. Mas penso que o que discerne Covas dos políticos de sua geração é o papel de timoneiro de seu partido e de outras lideranças, indicando sempre o caminho com uma autoridade impressionante. Mário Covas é, sobretudo, a referência política do PSDB. Pela sua importância, essa referência transcende o partido e se estende a todo o mundo político. Poucos homens conseguem ser um paradigma político em seus países. Covas marca o ritmo e indica o caminho. Poucos tiveram o privilégio de conhecer o seu lado bem-humorado e alegre, que é raro e restrito. Covas é um extraordinário contador de piadas, imitando os personagens com um desprendimento que é incrível para quem o vê quase sempre sisudo. Conta "piadas de bêbado" com uma verve cômica fantástica e paradoxal ao seu comportamento em reuniões de trabalho. Fui seu auxiliar no escritório de formação do PMDB; na campanha de Montoro, na qual ele comandava o conselho político; fui seu secretário municipal de São Paulo (primeiro, em Obras; depois, na Secretaria de Governo); seu auxiliar na campanha de 94, da qual tive a honra de ser um dos coordenadores; e seu companheiro no governo FHC, quando trabalhamos no lançamento do Rodoanel. Quando secretário, despachava com ele diariamente; compartilhava, sem querer, cinco maços de cigarro por dia. A dureza com que ele trata os colaboradores mais íntimos é substituída por uma impressionante afetuosidade quando em contato com gente humilde e carente. Quando prefeito, os mutirões eram o seu maior prazer. Acompanhei bem de perto. O grande momento, para ele, se dava ao término dos trabalhos, quando ia comemorar com os moradores. Não bebia, mas se enroscava numa conversa fiada que ia até as nove, dez horas da noite, para desespero de todos nós, da equipe da prefeitura. Portava-se com candura e extrema atenção; ouvia todo mundo sem exasperação nem dissabor. Tinha, com eles, a paciência que não se permitia ter com os secretários municipais. Seus maiores momentos foram nas horas decisivas do MDB, do PMDB e do PSDB. Foi sempre brilhante. No seu segundo mandato, em 68, com trinta e poucos anos, já líder de uma bancada que tinha expoentes como Franco Montoro, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, ele definiu o ritmo: enfrentando a ditadura, marcou posição ao negar a licença para que o Executivo iniciasse o processo de cassação contra o deputado Márcio Moreira Alves. Comandou a passagem do MDB para o PMDB. Foi quando o conheci pessoalmente e tive a oportunidade de trabalhar com ele pela primeira vez, organizando os diretórios do novo partido. O PMDB de São Paulo deve a Covas toda a engenharia de sua construção. Envolvido que estava com a candidatura Montoro e sabedor da posição semelhante que ele tinha, eu não conseguia entender a isenção com que ele conduzia a presidência do partido na disputa entre Montoro e Quércia. Ele me mostrou que isso assegurava a coesão do novo partido, que não poderia se dividir em plena formação. Eleito candidato a vice-governador numa pré-convenção na manhã do dia da convenção oficial, Covas retirou o seu nome quando percebeu a importância do grupo de Quércia, que exigia que este fosse o vice. Com humildade, Covas foi ser candidato a deputado. Definiu de que lado o PSDB deveria ficar no governo Collor, no auge da popularidade do ex-presidente, o que foi decisivo para a vitória do PSDB nas eleições para a sucessão de Itamar, que completou o triste mandato de Collor. Seu discurso se distingue pelo conteúdo, não pela retórica. Tenho muito orgulho do privilégio de conviver, discordar e aprender com um homem que é referência para todo o Brasil. Covas não é doce nem ameno com quem trabalha diretamente com ele, mas é um paradigma ético num país que vive à procura de políticos honestos. Covas é um exemplo. Uma vida pública inesquecível.

José Luiz Portella Pereira, engenheiro e diretor da Portella & Associados, é assessor especial do governo do Estado de São Paulo. Foi secretário municipal de São Paulo de Obras e de Governo (gestão Mário Covas) e secretário-executivo do Ministério dos Transportes (governo FHC).