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  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Um homem de Bem

No sistema de seleção negativa que é o jogo político no Brasil, cujos canais dificilmente permitem a passagem de quem não seja portador de um bom conjunto dos piores vícios e pecados da Humanidade, Mário Covas foi uma exceção.

Sua biografia política pode ser resumida como a exata e rara negação da receita tradicional de qualidades negativas que costumam garantir o "sucesso" nesse métier entre nós. E isso explica a comoção nacional causada por seu desaparecimento.

Sem ter precisado mergulhar nos clássicos ou saber teorizar a respeito, encarnava instintivamente os valores básicos da democracia, o sistema que nasceu para fazer com que homens comuns governem homens comuns, com base no senso comum.

Por isso, desempenhou seu papel com tanta autenticidade.

Toda a carreira de Mário Covas é de uma irrepreensível regularidade naquilo que sempre a sustentou: a imutável ordem de precedência, que ele soube manter, dos interesses de quem recebe os efeitos da ação política sobre os de quem a produz. Nunca permitiu que seus interesses pessoais, considerações sobre sua carreira, nem mesmo o dever de servir a seu partido prevalecessem, em qualquer momento de sua trajetória, sobre o que via como o interesse geral.

Covas está entre os poucos políticos brasileiros que tiveram a humildade de se deixar aprender com os fatos, em vez de tentar dirigi-los e manipulá-los.

Na carreira e no partido - do qual acabou por se tornar a consciência crítica - preferia esperar que recorressem a ele do que se apresentar. E sempre para dizer exatamente o que pensava, e não aquilo que sabia que gostariam de ouvir.

Tendo estado presente em todos os momentos cruciais da vida política da Nação, mostrou-se neles sempre o avesso do homem freqüentemente explosivo das ruas e dos confrontos diretos de opiniões e humores. Soube, aos 35 anos, virar um Congresso acovardado pela ameaça de cassação de Marcio Moreira Alves, com um discurso veemente a favor da inviolabilidade dos mandatos parlamentares, no episódio que acabou no AI-5 e na cassação do seu próprio mandato por dez anos. Recusou-se a trocar as palavras pelas armas, quando boa parte de seus companheiros da esquerda partiu para o terrorismo e a guerrilha, enquanto a direita radical pregava a violação das liberdades democráticas. Preferiu descer do "ônibus" do PMDB, depois da volta triunfal, para não ter de conviver com a mentalidade leniente que levou a seu comando gente de discutível estofo moral, e recomeçar tudo, com a fundação do PSDB com Franco Montoro e Fernando Henrique, entre outros.

Entre os social-democratas, nunca se apresentou, como de seu hábito, para disputar o estrelato e serviu de boi de piranha todas as vezes em que foi convocado para o sacrifício. Mas era a ele que o PSDB recorria em todos os momentos de decisão. Covas salvou o partido de inúmeras aventuras - inclusive a collorida - que poderiam ter resumido sua história à expressão de um mero engano infeliz.

Sendo a franqueza a mais incontrolável de suas qualidades, não foi sem penas que angariou o cacife moral que acumulou. Mas era do tipo de homem que não se importava de pagá-las, o que, sem premeditação, lhe garantia antecipadamente o perdão dos amigos contrariados e o respeito e o reconhecimento dos adversários.

Tendo se formado na velha esquerda, Covas foi um partidário da estatização, enquanto ela lhe pareceu a melhor solução. Mas, humilde o suficiente para aprender com os fatos, ao assumir o governo de São Paulo, vendo que o Estado se tornara incapaz de investir o necessário para satisfazer as necessidades de seu povo, não titubeou em lhe dar preferência sobre suas preferências pessoais. Comandou um programa de venda de estatais só superado pelo da União. E fez uma reforma administrativa que foi bem mais longe que a empreendida por ela.

O governo de São Paulo é, aliás, uma espécie de síntese dos valores centrais da personalidade de Covas. Tendo-o recebido com as finanças arrasadas por seus antecessores, como é a regra entre nós, trabalhou seis anos em silêncio para recompô-las, freqüentemente até contra os apelos de seus próprios correligionários, sem ceder por um minuto à tentação da busca de popularidade fácil ou de usar a máquina para fazer o jogo de seus correligionários, quando o ambiente ao seu redor era o que justificou a criação das Leis de Responsabilidade e dos Crimes Fiscais. Como resultado desse aperto, mandou este ano para a Assembléia Legislativa um orçamento com R$ 7 bilhões em investimentos, quantia equivalente à de que dispõe o governo federal.

Mário Covas era um homem de bem. E, ao mesmo tempo, a prova de que um homem de bem pode se dar bem na política brasileira. A confirmação de que o pior tipo de "esperteza" não é o único caminho para se conquistar o poder; fazer pactos com o diabo não é o único meio de se manter nele; nem a intolerância, a única alternativa para tudo isso.

A interrupção de sua trajetória pela fatalidade - seria o candidato natural à sucessão de Fernando Henrique Cardoso - foi, assim, mais uma tragédia na conturbada História de nossa República. O melhor preito a sua memória será transformar seu exemplo de exceção, ao subordinar carreira, idéias e ambições aos interesses mais altos da democracia e da Nação, em regra geral a ser cobrada dos homens públicos deste país.

Jornal da Tarde - Um homem de Bem