x Fechar
  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Discurso proferido durante instalação da capital em São Vicente (Brasil 500 anos)

20 de Janeiro de 2000

Ultrapassado o Equador, era o desconhecido. Pouco a pouco, a Estrela Polar desaparecia ao norte, fazendo aumentar o temor. Intrigava um Cruzeiro luzindo cada vez mais intensamente - anunciando um fim iminente, talvez ou - provesse a Deus - abençoando aqueles mares e, mais além, a costa. Não se deu por acaso, que à caminho das Índias, um continente recebesse aqueles navegantes. Há muito os aguardava a árvore que daria nome à nova terra. De folhas verdes, como verdes são as folhas de todas as árvores. Mas de flores amarelas, que florescem em setembro. Verde-amarelo que anunciava o país que também iria florescer em um certo setembro, muito depois. Em 22 de janeiro 1502 os portugueses atingiram o sul. Exploravam pela primeira vez aquelas plagas, e as batizaram com o nome do santo do dia: Vicente, que quer dizer vencedor. Exatos trinta anos se passam, e começa a ser confirmado o presságio. Também na festa de São Vicente, Martim Afonso desce ao Gohayó - o campo de bom acolhimento, como o chamava o gentio. Arrua o terreno, faz subir o pelourinho, levanta a igreja, ergue a Casa da Câmara, criando a primeira cidade do Brasil, dando origem a pátria vitoriosa, como o seu padroeiro. No solo vicentino se plantou a primeira muda de cana-de-açúcar do país, iniciando a sua prosperidade. E agora o Brasil é o maior produtor do mundo. Nos seus campos se multiplicou o primeiro rebanho brasileiro, que hoje só é menor do que o da Índia. Este caso, porém, não vale, porque na Índia o boi é sagrado e, como tudo que é sagrado, é quase imortal... Muitos dos que vieram naqueles tempos buscavam o Paraíso. E pensaram tê-lo achado. Sinais fortaleciam a crença. No céu, a constelação que simbolizava o martírio de Cristo. Na mata, a flor do maracujá, em que se identificavam os instrumentos da Paixão: a coroa de espinhos, os cravos da crucificação. A própria nudez inocente dos "bons selvagens" sugeria, nestas latitudes, a inexistência do pecado original. Tudo na nova terra apaixonava. Por isso aquela gente foi ficando, esquecendo o que deixara para trás. Avançando. De São Vicente saíram os homens e mulheres que, abrindo clareiras, fizeram brotar povoados nos sertões. E depois vilas, urdindo uma extensa rede de cidades. Como a meada crua que se fia, estes brasileiros foram tecendo os fios de uma grande nação. Colorindo-a com o branco, o negro e o amarelo dos povos de todo o mundo. Somos todos paulistas! Não dos quatrocentos anos de São Paulo, mas dos quinhentos anos do Brasil. É significativo as comemorações do V Centenário em São Paulo se iniciem nesta cidade, que é a matriz de todas as cidades brasileiras. E que isto se dê em janeiro - que além de ser o mês da sua fundação, é o primeiro do nosso calendário. Janeiro, cujo nome deriva de Jano - a divindade romana das portas, das passagens, e por esta razão, da transformação. O deus das duas faces opostas: uma voltada para frente, a outra para trás; uma olhando o passado, a outra apontando o futuro. À sua semelhança, no momento em que celebramos nossa história, é o futuro que devemos divisar. Porque o que se anuncia é alvissareiro. Tudo indica que o PIB do país deverá crescer 4%, neste ano 2000. Estima-se que a inflação caia para 6% e que a balança comercial tenha um superávit de US$ 5 bilhões. Por São Vicente começou o desenvolvimento de São Paulo e do Brasil. Que ela seja, então, mais uma vez o marco inicial de um novo ciclo de prosperidade. Mas que não seja apenas isto. Pois, com a eleição à Câmara, ainda em 1532, nela nasceu a democracia política em nosso país e em toda a América Latina. Nela encontraram expressão, pela primeira vez, o Judiciário e o Legislativo. Que parta, então, daqui, o clamor da justiça e da democracia sociais. Porque não é possível abandonar os sonhos dos que no Brasil buscaram construir um novo mundo, negando a enorme massa dos seus descendentes os benefícios da sociedade moderna. É urgente resgatar a dívida social e os "homens bons" gravados por ela. Após 319 anos, reúnem-se em São Vicente os poderes Judiciário, Legislativo e Executivo. A antiga vila retoma, de fato, a condição de Capital. Que isto nos alerte de que o Brasil não pode - e nem seu povo merece - aguardar mais quinhentos anos para que se universalizem o desenvolvimento, o bem estar, o conhecimento. É preciso agir, viver desperto esse sonho urgente, para que a névoa dos tempos não o cubra de sombras e o vele, desfigurando a esperança.

 Que voltemos ao Planalto com a boa nova deste compromisso.