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  • Creio na liberdade, esse vínculo entre o homem e a eternidade, essa condição indispensável para situar o ser à imagem e semelhança de seu criador.
  • Fazer política é uma coisa muito simples, apesar de muitos pensarem o contrário. Para mim, política é cultivar os valores da verdade, da liberdade, da honestidade e do caráter.
  • Não me venham falar em adversidade. A vida me ensinou que, diante dela, só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer.

Discurso de posse do primeiro Mandato de Governador do Estado de São Paulo

Primeiro Mandato

1º de Janeiro de 1995

Tomo posse com humildade diante da grandeza de São Paulo - uma Argentina encravada no coração do Brasil. Tomo posse consciente dos desafios dramáticos que aguardam a mim e a minha equipe. Uma enorme responsabilidade pesa sobre os nossos ombros, agravada pelo volume e pela urgência das demandas populares. Mas tomo posse, sobretudo, com os olhos postos sobre as nossas grandes cidades, quando me vêm à mente imagens que reluzem como emblemas: o de trabalhadores que vão a pé ao trabalho, noite adentro, porque sem dinheiro para pagar a passagem do ônibus; a das mãos dos presos, penduradas fora das grades das celas das nossas delegacias, marcas da superlotação e da violência que lavra; a de mães angustiadas, carregando seus filhos no colo, na longa espera de um atendimento que falha. Tomo posse o coração pequeno, mas a consciência indignada, só de lembrar minhas andanças por este Interior imenso, quando vi muitos milhares de boias-frias madrugarem, para labutar na safra ou no plantio, e quando soube que, quase sempre, ficam cinco meses por ano sem emprego. São Paulo não merece isso. Povo de meu Estado. Nesse dia de hoje, misturam-se a estas justas inquietações, a alegria e a esperança que todos os paulistas cultivam: desde logo, por ser o Ano Novo, o calendário, que se inaugura, anima em cada um de nós a certeza de dias melhores; depois, porque a posse de novos dirigentes alimenta inegáveis expectativas. De algum modo, muitos acreditam que, com Fernando Henrique presidente, o Brasil nunca mais será o mesmo. E nessa perspectiva, sem dúvida, não erram. Pois, como bem disse o presidente em seu discurso de despedida no Senado, a transição encetada no tempo de Geisel se completou. Mas, em especial, a "era de Vargas", com seu modelo de desenvolvimento autárquico e seu Estado intervencionista, findou. Um novo modelo está sendo construído, e São Paulo poderá manter nele seu lugar de dínamo e de colmeia de cérebros e de iniciativas. A nova configuração assenta-se em três pilares: uma economia estabilizada e aberta; um Estado indutor do crescimento sustentado e parceiro do setor privado; uma integração competitiva com a economia internacional. Mais que tudo, entretanto, há um eixo que é a razão de ser de todos os esforços para que o Brasil e São Paulo cresçam e se modernizem. Algo que transforma tudo em precondição. Trata-se do resgate da dívida social. Eis o compromisso maior da minha candidatura e de meu governo: a determinação de revolucionar o cotidiano dos paulistas. Porque quero ver devolvida a dignidade a milhões de deserdados e quero ver convertido o Estado numa rede de eficiência no atendimento daqueles que estão nas pontas das linhas. Os usuários, os contribuintes, os cidadãos, àqueles que penam nas filas das escolas para matricular os filhos, àqueles que se desesperam nas salas de espera dos postos de saúde, àqueles que sofrem nos saguões das repartições públicas para tirar documentos ou para pedir informações, àqueles enfim que se sentem enjeitados porque são tratados como se enjeitados fossem. Não é no assistencialismo que estou pensando, não, mas na competência em bem servir. Dadas as modernas tecnologias de gestão disponíveis, filas são aberrações, tanto quanto o são o analfabetismo, a ignorância e a fome. Penso que, às vezes, mais vale eliminar uma fila do que construir um viaduto. Por respeito. Por decência. Por coerência com a razão de ser do Estado que não está aí para servir-se da sociedade, mas para servi-la. Vamos virar uma página na história paulista. Vamos oferecer qualidade de vida à população - cidadania se faz assim. Reitero o sentido mais profundo dos compromissos da minha campanha, quando olhos e ouvidos atentos indagam na minha fala, e em meus gestos, se serei o mesmo homem no Palácio que fui nos palanques. Falo alto e bom som: serei o mesmo, como sempre fui, um homem público com uma cara só, sem pirotecnia e sem meias-verdades, teimoso até, de tanto cumprir a palavra empenhada. Sou portador de boa nova. Carrego a esperança que chegou a hora de resgatar duas dignidades. A de São Paulo, para que se reafirme como Estado-líder da federação; a da população desvalida, para que conquiste efetiva cidadania. Não pretendo comandar no governo uma mera troca da equipe diretiva, como se substituíssemos a guarda de plantão. São Paulo sempre padeceu de uma carência: desde os anos 30, nunca pôde equiparar sua influência política a seu peso econômico. Chegou a vez, por isso mesmo, de devolver a São Paulo a voz que lhe pertence. Uma voz que corresponda à sua importância estratégica. Mais ainda: é urgente recuperar o dinamismo econômico que sempre fez de São Paulo uma alavanca do desenvolvimento brasileiro. Com um acréscimo crucial, fruto da contemporaneidade: cumpre centrar parte dos esforços num desempenho pioneiro - o de difundir e praticar a Revolução Tecnocientífica que está em curso no Primeiro Mundo. Esta revolução está transfigurando processos de produção e relações de trabalho, formas de gestão e matrizes de pensamento, vantagens comparativas entre as nações e modos de vida das populações. A partir dela, a capacidade intelectual e a competitividade empresarial passaram a reger as relações internacionais. São Paulo não tem como, nem por que, omitir-se ou posicionar-se com timidez. Deve responder à altura, ciente de sua responsabilidade histórica, em respeito aos talentos que abriga e em função da complexidade de sua infraestrutura industrial, agrícola e de serviços. A primeira jornada consiste em devolver a São Paulo seu lugar de direito. Para que a economia paulista se integre, com força plena, na economia internacional, cada vez mais globalizada, gere mais empregos e redistribua mais renda. Mas esta jornada não basta a si mesma. É parte indispensável de um segundo resgate, cujo caráter não é político, nem tecnológico, mas social. Trata-se da dignidade de vida dos paulistas. Em particular, daqueles que se amontoam nas cidades-dormitório, daqueles que passam fome em meio à opulência de alguns e que sofrem a humilhação dos trens de subúrbio, daqueles que penam em abandono nos corredores dos hospitais e que se alienam na indigência de um ensino em crise. Resgatar sua dignidade é prover-lhes serviços públicos decentes para que eles não se sintam párias em sua própria terra. Para tanto, é preciso mobilizar recursos, arregimentar competências, sacudir crenças, varrer disparates burocráticos, inaugurar práticas que traduzam a vontade política em tijolos de solidariedade social. É muito querer, sem dúvida. Mas quem não sonha não faz. Não quero ser o governador do Estado que bate o ponto, exara despachos e assina decretos, na pachorrenta rotina do Palácio. Quero ser um divisor de águas. Quero infundir à minha equipe, e a essa generosa população que será servida, a coragem de desafiar as corporações que se encastelam em cada dobra da paisagem social. Quero romper com as tradições que se acomodam ao populismo e ao clientelismo. Quero fazer das políticas públicas um instrumento de redenção e de justiça social. Quero dar conta, sem vacilar um minuto, das urgências populares. Pretendo contribuir para apagar da memória estatística essas obscenidades que são nossos indicadores sociais. Afinal, faz sentido saber que, numa terra em que tantos alimentos se produzem dezenas de milhões enganem sua fome catando restos no lixo, ou tomando pinga, ou cheirando cola, ou simplesmente deixando o estômago roncar? Quando o Brasil precisou, a sede de combustível dos carros foi saciada com sofisticada produção de álcool, por que não encontrar respostas igualmente competentes quando se trata da fome dos brasileiros? Como é possível aceitar que cidades pujantes como as nossas mostre, em cada esquina, o horror de seus cortiços e as chagas de suas favelas? Mostrem gente com dentes apodrecidos, famílias desagregadas pelo desemprego, crianças batendo nos vidros dos carros atrás de um troco? Revelem, enfim um Estado ausente, incapaz de cumprir suas funções por inoperância, incúria ou descontrole? Vale dizer, temos duas frentes de combate: a primeira consiste em eliminar o descaso burocrático, a ineficiência técnica, o inchaço da máquina, os desperdícios inaceitáveis, a desordem nas finanças; visa a proceder a uma reengenharia do Estado para torná-lo capaz de cumprir suas funções. A segunda nos remete a uma problemática maior, quando o governo de São Paulo não poderá deixar de contribuir, de maneira eficaz, para redistribuir renda a tantos milhões de excluídos. Há uma lógica nisso tudo que um simples princípio traduz: o de que todos deveriam ter iguais condições para desfrutar oportunidades. Não se trata, apenas, de assegurar iguais oportunidades, como reza a cartilha oficialista. É preciso ir além: não só garantir a todos o acesso a elas, mas criar condições para que todos possam tirar efetivo proveito dessas oportunidades. E como se faz isso? Assegurando uma educação universal e eficiente, uma saúde pública que funcione, moradias decentes, água tratada, um transporte coletivo seguro; em suma, satisfazendo as necessidades sociais básicas da população, com competência e sem discriminação. Povo de São Paulo. Por onde começar? Vamos ser inflexíveis com a moral na gestão da coisa pública: vamos combater a corrupção, dizer basta ao loteamento dos cargos, acabar com o desperdício das obras inacabadas. Não faremos segredo das decisões, não usaremos manobras de bastidores, mas tornaremos acessíveis ao público os documentos oficiais. Vamos reinventar as práticas administrativas, usando formas empresariais de gestão. Vamos promover parcerias inovadoras com o setor privado e com o setor das associações voluntárias, delegando a produção de serviços públicos a quem tiver maior competência para fazê-lo. Vamos priorizar os investimentos com base em critérios de eficiência social e econômica. Vamos transformar empresas estatais e repartições públicas em centros de produção de resultados, para que possam prover serviços de qualidade para a população. Vamos descentralizar a gestão e avaliar os resultados, usando as tecnologias da informação para conferir autonomia às unidades locais - escolas, hospitais, distritos policiais, postos de saúde, escritórios regionais, serviços de assistência social e assim por diante -, e vamos mobilizar a população usuária para que avalie o desempenho dos serviços prestados. A razão desta nova arquitetura para o Estado é sempre a mesma e vai ao encontro de meu maior compromisso de campanha: reduzir a desigualdade e promover a justiça social. Incluir no mercado de trabalho e de consumo quem está fora dele, fornecer oportunidades de emprego para quem queira trabalhar e estímulo para quem queira produzir. Propiciar melhores condições de vida para a população, através de serviços públicos que funcionem. O povo clama por austeridade. Como iremos restaurar as finanças públicas? Através da moralização das práticas de gestão, graças à modernização dos métodos e da informatização dos processos. Sobretudo, pela redução dos custos. Pelo estímulo à dinamização da economia paulista. Pela cobrança da dívida ativa e pelo combate firme à sonegação. Pela renegociação, a preços de mercado, dos contratos e dos serviços. Pela securitização da dívida pública. Pelo financiamento dos investimentos através da concessão de serviços. Pela avaliação do desempenho das empresas estatais, com base em metas previamente negociadas. Pela revisão da política de isenções. Pela simplificação da tributação, beneficiando os pequenos contribuintes. Pela alienação, por fim, dos bens públicos improdutivos e pela racionalização do uso dos ativos existentes. O povo clama por seriedade. Como induzir o aumento da produtividade e da competitividade paulista? Vamos garantir regras estáveis e duradouras: quem produz e quem trabalha não pode ficar à mercê de sobressaltos, vítima de medidas tomadas na calada da noite. Vamos descomplicar a vida de quem queira produzir e simplificar a tributação. Vamos priorizar o investimento público que multiplique empregos e oportunidades. Vamos resgatar a cultura do trabalho e estimular as iniciativas empreendedoras, sobretudo das micro e pequenas empresas. Vamos formar parcerias com o setor privado para explorar novas oportunidades de mercado e aumentar a oferta de bens de consumo de massa. Vamos dar prioridade ao uso de instalações e equipamento existentes. Vamos apoiar a criação de câmaras setoriais e de projetos de impacto regional. Vamos incentivar novas formas de trabalho autônomas, cooperativas, ligas e esquemas familiares, e dar especial atenção à economia informal para que possa desenvolver-se sem ferir os interesses das empresas formais. Vamos resgatar as organizações não governamentais (as chamadas ONGs) nos programas de geração de emprego e renda, e estimular as atividades industriais que usem intensivamente mão de obra. Vamos, por fim desenvolver um programa de incubadoras e de parques tecnológicos, e dinamizar os institutos de pesquisa. O povo clama por respeito. Como promover a cidadania e proteger as liberdades democráticas? Dando atenção aos segmentos que têm sido objeto de discriminação e de descaso. Atacando de frente os fatores de agressão ao meio ambiente: destinação de lixo, tratamento dos esgotos, águas contaminadas, controle da poluição, acesso a área verdes. Mas principalmente: defendendo os direitos do consumidor e do contribuinte; criando comissões de avaliação da qualidade dos serviços públicos; instituindo ouvidores públicos que, em contanto direto com a população, colherão queixas e sugestões e acompanharão ações corretivas; implantando núcleos de arbitragem setoriais para buscar soluções, junto aos fornecedores, dos problemas apresentados pelos consumidores. O povo cansou de tanto desiludir-se. Chegou a hora da verdade. Chegou a hora de honrar, mais uma vez, minha dívida de gratidão. Devo a São Paulo minha formação escolar e acadêmica, aluno que fui de escolas públicas. Devo a esta terra a bênção de ter tido esposa, filhos e netos saudáveis e que me brindam com extraordinária felicidade. Devo à capital de São Paulo a rara experiência de ter sido seu prefeito durante trinta e três meses, oportunidade em que pude contribuir para encurtar as distâncias sociais que separam os paulistanos. Devo à generosidade do eleitorado de São Paulo três mandatos de deputado federal, um mandato de senado e, agora, um mandato de governador que - tenham todos certeza -, viverei, dia após dia, com empenho de quem tem pressa, com a sabedoria de quem tem humanidade, com a obstinação de quem tem compromissos, e, acima de tudo, com a responsabilidade de quem sabe que não pode falhar. Governador de todos os paulistas, quero citar, por fim, alguns versos do saudoso poeta Vinicius de Moraes que resumem o imperativo da solidariedade social: "Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos... Mas tende piedade também dos que andam de automóvel Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção. Tende piedade das pequenas famílias suburbanas E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina." Muito obrigado.